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Zuenir Ventura sob beijos e abraços

19 de novembro de 2017

No Grande Hotel de Araxá, está hospedado um senhor alto, de 86 anos, que mal consegue andar 50 metros. E não por conta da saúde, que segue forte. É que do café da manhã ao jantar, ele não cansa de ser cumprimentado, ouvir palavras de afeto, receber abraços e, às vezes, alguns beijos. Zuenir Ventura disse não se lembrar de ter sido tão bajulado quanto nesses últimos quatro dias.

Na noite de sábado, o jornalista e escritor debateu o poder da palavra em mais um Diálogo Espiral do Fliaraxá. Ao seu lado, três escritores que o tomam como referência: Tina Correia, Paulo Scott e Chico Mendonça. “Estou banhado de afeto”, disse Zuenir. “Deve ser por que sou o mais velho da tribo”, brincou.

Zuenir abordou a dificuldade que tem para escrever. Disse que, embora seja uma tarefa árdua, ele não saberia fazer outra coisa na vida. Lembrou que tanto o jornalismo quanto a literatura apareceram em sua vida por acaso. Estudante de letras, arrumou emprego como arquivista de um grande jornal. Um dia, passando pela redação, ouviu o editor perguntar se algum “idiota” estava disposto a escreve o obituário de Albert Camus. Zuenir, admirador do filósofo francês, encarou. “Nunca mais parei de escrever”.

Já sobre a ideia sobre o seu primeiro livro, “1968”, a história foi parecida. Um editor o convidou a publicar uma obra sobre alguns episódios da época da ditadura, mais precisamente os que se passaram no ano do título. Estavam em 1988 e Zuenir, chefiando uma redação importante, declinou da ideia. Acabou convencido pela esposa e adotou o projeto. Achava, porém, que a carreira não iria para frente. Apostou uma garrafa de whisky com dois amigos que o livro mal chegaria a mil exemplares. Hoje, ultrapassou a 40edição. “Estava enganado, mas também nunca paguei essa aposta”.

Generosidade

A aposta de Zuenir que deu certo foi Tina Correia. Foi ele quem levou a escritora sergipana ao jornal onde trabalhava e a incentivou a publicar o seu livro, ‘Essa menina”. Ela lembra dos rabiscos em vermelho que o jornalista traçava nos seus textos. “Por muito tempo, tive um sonho que andava na floresta com uma cesta de palavras e um lobo me seguia”, disse. “Não precisei fazer psicanálise para saber quem era o lobo”.

O papo prosseguiu sobre a inspiração. Tina destacou que costuma partir das histórias da família para escrever. Paulo Scott também. O escritor gaúcho até leu um trecho em que relataria uma passagem de sua infância, vivido com o irmão. Assim como Zuenir, Scott é conhecido como incentivador de jovens escritores. “A literatura em si já é um gesto de generosidade extrema”, explica. “Até porque, precisa da adesão e da conspiração do leitor”.

Sobre generosidade, Chico Mendonça, jornalista e cronista, pediu espaço para agradecer ao escritor Pedro Muriel. Portador de problemas sérios de saúde, que lhe obrigam a viver em cadeiras de rodas e a respirar por aparelhos, Muriel encontrou na literatura uma pulsão de vida. “Foi bonito ver ele autografando o seu livro para o Mia Couto e o Zuenir Ventura”.

Chico leu a orelha do livro de Muriel. Zuenir quase chorou “Se ele estivesse aqui, teria enchido ele de beijos”.

 

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