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Para Cristovão Tezza, ler um livro hoje é um ato revolucionário

21 de junho de 2019

Escritor  falou com exclusividade para o site do Fliaraxá

Cristovão Tezza é simpático, sorridente, tem a fala rápida e didática, com um leve sotaque paranaense. Numa mesinha no cantinho de uma sala do Fliaraxá, logo pela manhã desta quinta-feira (20), ele conversou com o site e disparou: “Tá tudo muito legal, principalmente a área de cervejas artesanais”, disse, com o bom humor de quem parece já ter cumprido uma parte da sua missão como escritor na terra. Escreveu romances, contos, crônicas e até uma autobiografia literária. Ganhou muitos prêmios, entre eles um Jabuti em 2008 por Um filho eterno. Aos 67 anos, Tezza está em atividade intensa, a plenos pulmões.

Enquanto prepara um novo romance, continua divulgando o seu último trabalho A tirania do amor (2018), livro que irá levar nesta sexta (21), às 19h30, para a “Estação de Autógrafos”, área anexa à livraria Blooks instalada dentro do Festival. Pouco antes, às 18h30, ele participa de uma das principais mesas do Fliaraxá, “Ficção em África, Brasil e Portugal”, ao lado de José Eduardo Agualusa e Valter Hugo Mãe.

Crítico do anti-intelectualismo que hoje atinge o Brasil e o mundo, ele não acredita em quem desconfia da inteligência. “Ler um livro hoje é um ato revolucionário”, disse, em conversa com o público nesta quinta durante a programação do “Sempre um Papo” no Fliaraxá. Confira abaixo o rápido bate-papo com o escritor:

Você participa de um debate no Fliaraxá que discutirá a ficção na África, Brasil e Portugal. Na sua opinião, quais são os pontos de intersecção, as dificuldades e as diferenças mais marcantes entre o fazer literário nestes continentes?
É um tema, digamos assim, em aberto. A gente tem uma imensa história em comum com um eixo em comum que é a língua portuguesa, que por si só talvez não seria suficiente para manter uma ideia de uma comunidade comum cultural.

Mas, por outro lado, por alguma razão, historicamente há uma vontade e um desejo político de se criar essa unidade a partir da identidade da língua, até mesmo com a questão ortográfica, do novo acordo.

A literatura de Portugal tem uma proximidade muito forte e marcante no Brasil e formatou a nossa origem literária. Acho que é um tema fascinante ver aonde estão estes pontos de contato culturais e em que medida a língua é um elemento de unificação ou até mesmo de separação.

Muitos dos seus livros vão pegar o dado bruto da vida real e transformar em literatura. Pegando o gancho com o tema deste Fliaraxá, como a imaginação opera na construção das suas obras, tendo sempre esse tom confessional e esse caráter biográfico?
Quando eu começo um livro eu não sei para onde ele vai. Na verdade, eu tenho um esqueleto narrativo na cabeça, uma situação emocional inicial, minha literatura é muito visual também e o próprio fato de escrever vai me revelar coisas que eu não sabia antes de começar a escrever. O processo de escrever é um processo de autodescoberta também.

Mas minha literatura não é autobiográfica. Meus livros são, sim, estruturalmente confessionais, com personagens em situações e pontos de vistas que vão tomando conta da história. E a realidade entra como pano de fundo. Não são livros sobre determinado período político do país, por exemplo, são livros sobre pessoas pensando a respeito deste período.

Temas sociais relevantes estão presentes na sua obra. Como no jornalismo existe este mito da objetividade, você acha que também é impossível fazer literatura sem se posicionar diante da realidade, da política?
Uma narrativa é uma hipótese de existência a partir da experiência pessoal, social, da língua que você fala, do seu mundo concreto. Mas acho que você tem que tomar um certo cuidado da perspectiva literária para não escrever um panfleto. Não é este o objetivo da literatura. A literatura não funciona nesta chave. Para isso, você tem o jornalismo, tem o ensaio, os artigos.

São duas coisas distintas. Um escritor pode se posicionar. Agora, quando você faz literatura, você realmente tem que ultrapassar você mesmo. Eu não escrevo um romance para defender um ponto de vista sobre um governo, qualquer que seja. Mas eu trabalho com figuras, com perspectivas humanas, personagens, com vozes narrativas que vão refletir sobre isso aí.

Você tem então dois empuxos. Um é como o ponto de vista se coloca na cabeça do outro. E outro é você ser fiel, você ter respeito a verossimilhanças existenciais. Senão, você cai em um velho realismo socialista onde personagens são simplesmente porta vozes de opiniões políticas. Eu estou interessado em outro nível literário.

(Rafael Minoro)

Confira a participação de Cristóvão Tezza na mesa que debateu o tema Conto, gênero maldito?

 

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