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O araxaense Tião Carreiro, um mestre da tradição oral brasileira, é descoberto por Marco Haurélio

29 de junho de 2019

 

O olhar clínico e experiente de Marco Haurélio não deixaria passar desapercebido o araxaense Sebastião José Pereira, apelido Tião Carreiro, de 75 anos. É um verdadeiro “patrimônio vivo” – um mestre da tradição oral brasileira – um “griô”.  Leiam o texto escrito por Haurélio, com direito a um aperitivo, contado por este tesouro araxaense, Tião Carreiro que tem como protagonista São Francisco de Assis, em uma narrativa breve:

 

Um dia, São Francisco foi em busca de Deus, desejoso de saber o que fazer para entender o coração dos homens.

Deus apenas disse que fosse ao mar e, com uma moringa, retirasse a água até secá-lo. O santo, humilde, não questionou e logo começou o serviço.

Passou um tempão naquele trabalho inútil, até que, cansado, decidiu ir ao encontro do Criador para tentar entender o seu desígnio.

Depois de ouvir as queixas do santo, Deus disse:

— Francisco, você não compreendeu nada. É mais fácil secar o mar do que entender o coração do ser humano!

 

Abaixo, o texto escrito por Marco Haurélio relatando a participação de Tião Carreiro no Fliaraxá:

 

Em 2015, desembarquei em Araxá para participar do Festival Literário da cidade pela primeira vez. O convite de José Santos, então curador da programação infanto-juvenil, generosamente endossado por Afonso Borges,  me proporcionou momentos para não deslembrar, encontros com muitos autores e autoras, estabelecimento de amizades sólidas, mas um momento, em especial, sempre faço questão de ressaltar. Durante os cinco dias do evento, com estrutura montada no centro de Araxá, quem mais me chamou a atenção foi um senhor negro, de cerca de 75 anos, que se locomovia com a ajuda de uma bengala. Arrastava um saco plástico enorme, no qual guardava as latinhas coletadas durante o Festival.

 

No último dia, durante o Sarau de encerramento, com o versátil grupo Fratello, escapuli por uns minutos, quando o vi encostado a um dos palcos, e puxei uma conversa que quase deu em nada. Depois de me apresentar, ele disse o seu nome, Sebastião José Pereira, e também o apelido, Tião Carreiro, homônimo do grande violeiro e cantor sertanejo. Quando perguntei se sabia contar histórias se esquivou, afirmando que a lida da roça, que consumiu boa parte de seu tempo, não lhe permitia fazer mais nada. Sua vida, até ali, tinha sido apenas para trabalhar. Aproveitei, então, para lhe pedir licença e contar uma história, aprendida com minha avó, Luzia Josefina, sobre Jesus e São Pedro. Ao terminar, ele emendou com uma versão ainda mais elaborada do mesmo conto. E, depois, num só fôlego, contou mais três, todas elas narrativas pias, ou seja, lendas do sagrado, impregnadas da religiosidade popular. Eu não dispunha de um gravador naquele momento, mas registrei todos os contos na memória e os transcrevi, tão logo desembarquei em São Paulo, onde resido.

 

Em 2016, de volta a Araxá, o reencontrei e descobri que seu Tião era avô de uma moça que fizera a oficina de cordel comigo no ano anterior, Kelen Pereira, e pai de uma professora que conheci no evento, a Mirtes. Ambas haviam lido, emocionadas, uma postagem que fiz no blogue Contos e Fábulas do Brasil. Seu Tião, já totalmente desinibido, contou mais uma história, também do ciclo de Jesus e São Pedro, e assistiu, com a neta, parte da palestra que proferi abrangendo o cordel e a tradição oral. Reuni os quatro contos narrados por seu Tião para um livro que seria lançado em fins de 2018, mas ao qual só tive acesso em 2019, “Vozes da Tradição”, da Editora IMEPH, de Fortaleza. A ideia era ir a Araxá, este ano, para entregar-lhe o livro. O convite feito por Leo Cunha e Afonso Borges, para participar, mais uma vez, do Fliaraxá, que, há três anos, acontece nas dependências do Grande Hotel Tauá, entre os dias 21 e 23 de junho, encurtou a distância entre o desejo e sua realização. Mas seu Tião, que fora vítima de um mau motorista em 2014 (daí a bengala), talvez não pudesse comparecer, já que não consegue mais se locomover como antes. A participação da família Pereira talvez não fosse possível, era o que eu pensava.

 

A atividade do dia 22, sobre cordel e imaginação, começou com a presença de Kelen, grávida de cinco meses, sua filha Luísa, Mirtes e outros membros da família. Logo depois, chegou, numa cadeira de rodas, seu Tião. Tão logo chegou, fez questão de pegar o livro, folhear, e, a um pedido meu, generosamente, contou uma das histórias, “Deus lhe pague!”, fazendo com que o riso e os aplausos, generosos, brotassem da plateia. Ao final, entreguei o seu exemplar e pude ver a felicidade em seus olhos. Nesse ponto, o riso já se confundia com o pranto.

 

Seu Tião, que está com 78 anos, vai passar por uma cirurgia. Em sua perna, uma imensa placa de metal provoca muitas dores. Acredita que, depois disso, poderá voltar a andar. E, se já não pode mais caminhar por Araxá, como em outros tempos, jamais deixou de contar histórias. Disse saber muitas outras e fará questão de enviá-las. Gostou de ser citado num livro, um reconhecimento que, segundo ele, jamais imaginou que teria. Disse-me que lhe dei um presente. Eu, claro, o corrigi. Quem me deu um grande presente foi ele. Afinal, mestres como seu Tião, guardiães da fonte da memória, são cada dia mais raros. Assim, fazendo jus à história que me narrou, sou eu quem deve dizer: “Deus lhe pague!”.

 

EM TEMPO: Marco Haurélio é, na atualidade, um dos maiores coletores de contos tradicionais do Brasil. São centenas de versões, muitas delas já registradas em livros que são hoje leitura obrigatória para quem estuda ou, simplesmente, quer conhecer um pouco mais as tradições populares do nosso país. O projeto Vozes da Tradição, que nasceu de uma pesquisa no sertão baiano, em 2015, incluindo o registro feito em parceria com Lucélia Borges, ampliado com os contos ouvidos em Araxá (MG), é uma homenagem aos mestres e mestras do povo, guardiães da fonte da memória. São as vozes silenciadas pelo advento das novas tecnologias e pela dificuldade, inerente à condição humana, em conciliar o velho e o novo, ou melhor, em entender que as manifestações da oralidade estão para além das questões da temporalidade. As narrativas enfeixadas neste volume, ricamente ilustrado por Luciano Tasso, sugerem que abramos nossos ouvidos e nossos corações e sejamos, nós mesmos, elos dessa cadeia que nos conecta a povos e lugares, reais ou irreais, fazendo valer o princípio da fraternidade universal que norteia os contos do País da Infância.

 

 

Crédito das fotos: Lobo Junior.

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