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No Fliaraxá, democracia não é ficção

21 de junho de 2019

Heloisa Starling, Agualusa e Sérgio Abranches debateram o tema

A palavra Araxá em tupi guarani significa algo como um lugar mais alto, de onde se avista o horizonte. Pois daqui, da pequena cidade do interior de Minas, os participantes do VIII Fliaraxá puderam na noite fria desta quinta-feira (20) ver uma esperança além da paisagem meio nebulosa que se constrói hoje no Brasil e no mundo, com certos abalos sísmicos na democracia.

Com objetivo de trazer o tema para o centro do Festival, três dos principais escritores convidados -Heloisa Starling, José Eduardo Agualusa e Sérgio Abranches- participaram da mesa “Democracia: Realidade e Ficção”, mediada por Afonso Borges. O encontro reuniu mais de 400 pessoas no auditório do Cine Teatro, no Tauá Grande Hotel.

Democracia não é algo natural
Cientista política, historiadora e curadora do Fliaraxá, a professora da UFMG Heloisa Starling fez um alerta: estamos tão acostumados com a democracia que não queremos achar que ela corre risco. “Mas, a democracia não é algo natural. E para defendê-la, tem que se mobilizar”, disse, ressaltando que o perigo no Brasil está no ataque a três instituições: a universidade pública, as artes e a imprensa.

O escritor angolano José Eduardo Agualusa, com a visão de fora do país, trouxe uma reflexão para o público. “Paradoxalmente, por vezes o que leio nos jornais do mundo, me parece o mundo estar mais lúcido do que estar a passar no Brasil do que os próprios brasileiros”, disse, sob aplausos. “No Brasil, é uma questão entre inteligência e estupidez. Não se trata de direita e esquerda, é questão entre e a barbárie e a civilização”, arrematou.

Heloisa, então, deu o roteiro para um conto de ficção, mas que se impõe como realidade. “É como se eventos que ocorreram no século 20 voltassem e se apresentassem no século 21. Como se estivéssemos imprensados, uma sensação confusa. A sensação de que o passado não passou. Alguma coisa do passado reaparece não como objeto de disputa, mas como fraude. Há uma tentativa sistemática de se fraudar a história”, frisou.

Para ela, fraudar o fato histórico traz um imenso perigo a democracia, pelo fato de que a mentira permite que a história seja reescrita. “Se eu minto eu não tenho contas a prestar, não tem contraditório, não tem necessidade de eu debater posições diferentes. Se a confiança na veracidade histórica for quebrada, tudo vai se resumir a uma questão de opinião”, pontuou.

 

Confira a íntegra da mesa “Democracia: realidade e ficção”

 

Democracia em crise
Para o sociólogo e cientista político Sérgio Abranches (também curador do Fliaraxá), a democracia é um regime que é o ápice da engenharia humana no processo de construção de convivência baseado na igualdade. “Mas, essa construção está em xeque ultimamente. Alguns dos seus componentes esgotaram. Hoje, a democracia frustra os cidadãos porque ela não consegue com os instrumentos que têm hoje prover o mesmo grau de conforto que provia no passado. Os instrumentos de realizar a felicidade humana estão, eles mesmos, em crise”. Ela vai acabar? “Eu respondo essa pergunta com esperança. Ela sobreviverá de nova formas, de novas maneiras”, disse Abranches.

Abranches afirmou, ainda, que sente falta de uma literatura pujante sobre o auge da democracia, as benesses da democracia, assim como existe uma gama imensa de livros de alta literatura sobre períodos difíceis como as ditaduras da América Latina.

Agualusa, então, lembrou o papel essencial que os poetas sempre tiveram nas insurreições, nos levantes e revoluções. “Em Angola, o movimento independentista começou com poesia, com organização literária até cair no movimento de luta armada”, recordou. “Acredito que a ficção tem um papel importante de nos aproximar dos outros. A ficção melhoras as pessoas, nos ajuda a se reconhecer no outro”, disse.

Heloisa Starling arrematou, finalizando a noite com o gigante Carlos Drummond de Andrade e um trecho da poesia Canção Amiga. “Eu preparo uma canção / Que faça acordar os homens / E adormecer as crianças“.

(Rafael Minoro)

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