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No Festival da palavra, uma viagem nas imagens de Cândido Portinari

21 de junho de 2019

Em pleno festival que celebra a palavra, a manhã da sexta-feira (21) no Fliaraxá foi dedicada às geniais imagens criadas pelo mais importante pintor brasileiro, Cândido Portinari (1903-1962). O responsável para falar da sua história e obra foi seu único filho, João. Ele é presidente da Associação Cultural Cândido Portinari, que faz o levantamento, catalogação, pesquisa e disponibilização do acervo documental sobre a obra, vida e época do artista.

A palestra lotou o Teatro Tiradentes e foi realizada num formato multimídia, levando o público a viajar no universo Portinari. Durante horas, os olhos atentos da plateia ficaram vidrados nas mais belas figuras, reportagens, textos que eram apresentados. João afirmou que Portinari desenhou seu povo e para ele, como se fosse uma “carta”. “Mas sua obra está em museus e coleções particulares, portanto, não é tão acessível. Por isso, faço tudo pela sua democratização”. Usando o mesmo raciocínio, podemos dizer que João é o “carteiro”, que nasceu para fazer a entrega da “carta” do pai ao povo do Brasil e do mundo.

João dedica sua vida a realizar exposições, catálogos, visitações e tudo que pode apresentar as obras de Portinari. Com o advento da Internet, João viu nela a oportunidade de acesso irrestrito ao acervo. Organizou um portal com mais de cinco mil obras digitalizadas, além de cartas, documentos, discursos. Tudo que existe sobre o artista pode ser encontrado no portinari.org.br. João contou que fez questão de lançar o portal no Complexo do Alemão no Rio de Janeiro, por ser uma das áreas de grande violência e vulnerabilidade social e era para aqueles, que ali vivem, que seu pai pintava.

Guerra e Paz

Um dos momentos mais emocionantes da apresentação foi quando o expositor contou a história dos painéis “Guerra e Paz”. Com 14×10 metros cada, os dois murais foram produzidos, entre 1952 e 1956, encomendados pelo governo brasileiro para presentear e serem expostos na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, onde estão até hoje. Eles haviam sido apresentados aos brasileiros apenas uma única vez, antes de partirem, numa cerimônia no Teatro Municipal do Rio de Janeiro que contou com a presença do então presidente Juscelino Kubitschek.

Graças ao esforço de João, as obras voltaram ao Brasil cinquenta e quatro anos depois, em dezembro de 2010, para serem restaurados por uma equipe de professores brasileiros e, renovados, expostos em várias cidades do Brasil e do mundo. João contou que o pai nunca pode ver a obra exposta nas Nações Unidas. No período do lançamento, os Estados Unidos viviam sob as perseguições do macarthismo e Cândido era um militante do Partido Comunista do Brasil. Na solenidade de lançamento em 1957, até a citação do nome do pintor foi proibida.

 

João Portinari, Marco Lucchesi, Ignácio de Loyola Brandão, Afonso Borges e Zuenir Ventura

 

Outra curiosidade sobre “Guerra e Paz” foi contada por João. A obra pode ter levado Portinari à morte. Os médicos o aconselharam a parar de pintar por causa do processo de envenenamento causado pelo tipo de tinta usado. Mas ele preferiu a arte à própria vida.  “Foi fatal. Havia aquela proibição médica, que ele não respeitou. Mas ele não podia deixar de passar a maior mensagem da vida dele, a mensagem de paz”.

A história foi lembrada também pelo secretário geral da ONU, Ban Ki-moon. Um vídeo do relançamento dos painéis em Nova Iorque foi apresentado e a plateia do Fliaraxá pode também se emocionar com as palavras do diplomata sul coreano. “Ele literalmente deu sua vida por essa obra de arte”, afirmou. “Portinari e seu legado viverão para sempre nas Nações Unidas”, acrescentou, pedindo, em seguida, um minuto de silêncio ao pintor.

Em 6 de fevereiro de 1962, Portinari morreu em consequência do envenenamento pelo chumbo presente nas tintas que usava.

Tomados pela emoção, três escritores: Zuenir Ventura, Ignácio de Loyola Brandão e Marco Lucchesi, membros da Academia Brasileira de Letras, juntos do curador do Fliaraxá, Afonso Borges, subiram ao palco para abraçar João Portinari. O presidente da ABL, Marco Lucchesi, resumiu numa frase o agradecimento coletivo que João merece pelo seu trabalho de preservação e divulgação do trabalho do pai. “Portinari deixou um legado artístico inestimável para o mundo. Mas sua obra maior, foi o querido filho: João, eu te amo”. (Anna Célia Carvalho e Kerison Lopes)

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