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De ‘termas’ em ‘termas’, Agualusa chega ao Fliaraxá

20 de junho de 2019

Angolano esteve na primeira edição e retorna agora depois de quase 10 anos  

José Eduardo Agualusa e o Fliaraxá são conhecidos de muito tempo. O escritor angolano participou da primeira edição do Festival, em 2012, quando o projeto ainda engatinhava pra crescer e se tornar um dos principais do gênero no país. De lá pra cá, Agualusa rodou o mundo, lançou mais livros e… parou num hotel termas em Portugal para participar, na semana passada, também de um evento literário.

“É uma coincidência extraordinária porque no mundo inteiro devem haver apenas dois festivais de literatura em hotéis de termas e eu saí de um para vir parar em outro”, brinca o autor de Teoria Geral do Esquecimento (2012) e A Sociedade dos Sonhadores Involuntários (2017), destacando que um dos diferencias do Fliaraxá é hoje ser realizado dentro de um hotel com estas características.

Entre um descanso e outro nas dependências no Grande Hotel Araxá, Agualusa terá uma agenda frenética durante o Festival. Esteve presente na abertura na quarta-feira. Na quinta, às 20h, participa da mesa “Democracia: Realidade e Ficção”, com Sérgio Abranches e Heloisa Starling. Na sexta (21), às 18h30, vai dividir suas experiências com Cristovão Tezza e o amigo Valter Hugo Mãe no debate “Ficção em África, Brasil e Portugal”. E no sábado (22), às 18h30, encontra-se com Conceição Evaristo e Leila Ferreira para discutir um tema que poderia ser título de um dos seus livros: “Escrever o Sentimento do Mundo”.

No vai e vem do Festival, José Eduardo Agualusa teve um tempinho pra conversar com o site sobre democracia, formação de público e, claro, literatura e imaginação. Leia a entrevista abaixo:

Você tem sonhado muito com a democracia? Como ela está no seu sonho. E como ela está quando você acorda?
Acho que há um recuo. A humanidade avança e neste avanço há pequenos recuos, sempre. Há refluxos de avanços. Estamos no momento de refluxo a nível global, quer dizer que houve um avanço grande de forças totalitárias, mas eu não creio que seja pra ficar. E acho que há avanços que foram conseguidos que já não há recuo para eles. Por exemplo, a questão da mulher, dos direitos dos homossexuais. Acho que embora existam forças conservadoras e arcaicas, não será possível recuar, já não iremos recuar. E também acho que é passageiro. No dia em que o Trump perder as eleições, e vai perder agora, muitos destes movimentos vão se esvaziar, não creio que tenham força real.

Como você avalia a evolução do Fliaraxá, já que esteve na primeira edição, há quase 10 anos?
É tudo diferente. Tem mais autores novos, é muito maior, o festival foi crescendo, virou uma tradição e está trazendo mais público. Nota-se que o público está mais sofisticado também. Estes festivais vão educando as pessoas. Muitas vezes, talvez, as pessoas não tinham o costume de ler, e elas começam a ler e a conhecer os autores e ter proximidade com eles. Então, há todo um movimento de sofisticação da própria sociedade, das próprias comunidades onde acontecem os festivais.

Qual o lugar da leitura no nosso imaginário? De que modo habitamos o mundo por intermédio da leitura?
Pra mim, ler são muitas coisas, mas sobretudo um exercício de alteridade, no sentido de que quando você lê um livro de ficção você está a se colocar-se no lugar do outro e, neste sentido, ler fortalece o nosso músculo da empatia e torna-nos mais empáticos, torna-nos mais próximos um do outro. Neste sentido, eu acredito que ler ficção melhora as pessoas.

(Rafael Minoro)

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