Notícias

Conceição brinca que “tá lacrando”, mas questiona: e as outras autoras negras?

    23 de junho de 2019

    Escritora  fala sério ao tratar da dificuldade para autoras negras

    Você já teve a oportunidade de estar perto de Conceição Evaristo? É tão gratificante ouvir aquela voz meio rouca, baixinha, estar de frente para aquele olhar profundo e saber que ali tem uma mulher gigante. Pela primeira vez presente ao Fliaraxá, a escritora de Ponciá Vicêncio participou, ao lado do angolano José Eduardo Agualusa e da jornalista Leila Ferreira, da mesa “Escrever o Sentimento do Mundo”, no sábado (22), penúltimo dia do Festival.

    Conceição é autora consagrada mundo afora e cada vez ganha mais prestígio. Com obras traduzidas para o inglês, alemão e francês, ela atualmente leciona como professora visitante na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e é uma das principais referências da voz negra feminina na Literatura Brasileira. Em 2017, sua vida e obra foram tema da “Ocupação Itaú Cultural”, em São Paulo, instalação realizada no prédio que leva o nome da instituição e fica localizado na Avenida Paulista.

    Nesta entrevista ela brinca que, pessoalmente, “tá lacrando”, mas discorre sobre o cenário difícil e mais exigente para as autoras negras, lembra do contato com as obras de Machado de Assis e Carolina Maria de Jesus, além de falar sobre a imaginação e o poder da literatura na vida das pessoas. Confira abaixo:

    Você já disse em outras entrevistas que, assim como escrever, publicar é um ato político. Autoras negras e mulheres ainda estão marginalizadas de eventos literários, grandes editoras e, também, do interesse da imprensa ou este cenário tem mudado?
    Esse cenário tem mudado, mas ainda muito pouco. Hoje eu sou uma escritora que tenho visibilidade, porém isso é muito recente. A Flip 2017, a Ocupação Conceição Evaristo no Itaú Cultural, o fato de eu ser a escritora homenageada da Olímpiadas da Língua Portuguesa e ser escolhida a personalidade literária do ano pelo prêmio Jabuti, isso tudo chama a atenção da imprensa e me dá visibilidade. É o que eu tenho dito: toda exceção confirma uma regra. Aonde estão as outras escritoras negras? Claro que eu fico feliz pessoalmente, isso é muito bom pra minha vaidade, eu até tenho brincado que hoje eu “tô lacrando”. Mas, eu sou uma. Eu acho que isso tem que ser pensando. Por que somente uma escritora negra no cenário literário? E por que tão tardiamente? Eu publico desde 1990. Essa exceção tem que suscitar algum questionamento. O cenário tem mudado, mas ele muda muito mais por insistência nossa.

    As mulheres negras autoras são mais cobradas?
    Na verdade, há uma exigência muito grande em relação a essa autoria negra. Tem um texto interessante da Ana Maria Gonçalves que diz assim: Só o escritor branco pode escrever ruim, o escritor negro não porque o filtro é maior. Aí o que a gente vai pensar: há escritoras brancas que escrevem muito bem, há escritoras brancas que escrevem mal. Num conjunto de obra, um escritor ou uma escritora pode produzir uma obra muito boa, mas tem um livro ou outro que realmente não é uma excelência. Mas ao sujeito negro essa autoria negra é muito mais exigente.

    Você se lembra quando tomou contato com a obra do Machado de Assis, que é o patrono do VIII Fliaraxá?
    O primeiro livro que eu li do Machado eu era muito nova. Foi “Esaú e Jacó”. Depois, eu aprendi a pensar Machado de outra forma, é quando eu descubro o Machado de Assis negro. E aí neste sentido é mais recente esta leitura, uma leitura que eu vou ter já pensando nesta autoria negra. Eu li um texto do Octavio Ianni publicado 1988, que foi o ano do centenário da abolição, e ele aponta Machado de Assis, Cruz de Souza e Lima Barreto como precursores de uma literatura negra no Brasil. Machado tem influencia na linguagem brasileira e todos os autores escritores e escritoras que tiveram este exercício da leitura de Machado, todos nós sabemos muito bem o seu significado para a literatura brasileira.

    O Fliaraxá trouxe o Tom Farias que está lançando a biografia da Carolina Maria de Jesus. A obra dela lhe influenciou? Quando você teve contato e leu pela primeira vez a Carolina? Como foi?
    Eu li Carolina, o Quarto de Despejo, ainda nos anos 60, quando ela estava no auge. Eu participava de movimento de bairro e igreja em BH e foi neste momento que eu descobri Carolina. Foi um texto que me marcou muito como marcou toda minha família porque o que Carolina passava nas ruas de São Paulo era a experiência também que a gente vivia em Belo Horizonte. Então, ler Carolina era ler nossa própria história. Fico muito feliz porque as pessoas fazem essa ligação da Carolina com a Conceição. Há uma diferença, no entanto. Carolina escreve a partir de uma realidade bem diferenciada da minha. Mas existe muita semelhança também. Carolina não inventa nada pra escrever sobre a fome. Ela escreve sobre a fome a partir de uma experiência muito dela. Eu não invento nada pra escrever sobre a pobreza, eu vejo a pobreza a partir de dentro, eu vejo a questão racial a partir de dentro. A coincidência literária é que escrevemos a partir de um espaço social dos subalternizados.

    Como a senhora enxerga a imaginação na literatura, já que suas obras são bastante reais e trazem muito questões sociais atuais. Imaginação é também uma forma de poder contar histórias reais?
    Sem sombra de dúvida. É impossível você captar uma realidade e escrever justamente da maneira como a coisa aconteceu. Quando você conta uma história você já faz uma ficção. A narração que não pretende ser ficcional é a narração histórica. E mesmo assim o historiador escolhe o seu objeto de pesquisa, o objeto de pesquisa é atravessado pelo seu olhar, pelas suas preferências. Em momento algum eu esqueço que estou trabalhando com a palavra, então eu, no meu processo, penso muito sobre qual palavra eu vou usar, leio o texto pra escutar o som da minha voz, os nomes dos meus personagens são muito bem trabalhados, o título do livro… então, mesmo nesta tentativa de captar a realidade, quando ela é transcrita ali já tem um dado ficcional. Se tudo o que eu escrevo fosse verdade, eu teria que ser uma pessoa de mil personalidades!

    Eu tenho a impressão de que quando as pessoas se aproximam de você, elas têm sempre um tom emocional muito forte. Você já se acostumou a isso? E você tem a noção do quanto a literatura pode tocar uma pessoa e mudar a vida dela?
    Olha, eu tenho agora tido esta noção sim porque a gente vê em muitas pessoas que não é teatro, é sentimento. E o que eu percebo? Esse poder de convocação que este texto produz nestas pessoas. Eu tive essa percepção uma vez, acho que em 2009, quando o livro Ponciá ficou no vestibular da UFMG e eu fui dar uma palestra numa escola particular. Só tinham meninos e meninas de classe média alta. Não tinha nenhum aluno negro. E, depois da palestra, um destes meninos veio falar comigo: “A senhora sabe que depois que eu li o seu livro eu descobri que pra chegar no quarto da empregada da minha casa eu atravessa aquela sala e outro salão e foi quando eu percebi que ela ficava lá no fundo”. Ora, se esse menino percebeu essa distância física e é capaz de perceber também essa distância social -o que significava a empregada na casa dele-, eu acho que essa literatura já cumpriu uma missão.

    (Rafael Minoro)

    [fbcomments]

    Deprecated: Directive 'track_errors' is deprecated in Unknown on line 0