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Afonso Borges comenta sobre o tema “Alma, Leitura e Revolução”

4 de maio de 2018

A história da leitura começa com duas modestas placas pictográficas de argila de Tell Brak, na Síria, datadas de 40 séculos antes de Cristo. Ao olhá-las prolongamos a lembrança dos primórdios do nosso tempo e preservamos um pensamento muito depois que o pensamento parou de pensar e nos tornamos participantes de um ato de criação que permanece aberto enquanto as imagens entalhadas forem vistas, decifradas – lidas.

Através da leitura conseguimos cultivar as aventuras do pensamento e de suas experiências.  Aquele que lê, jamais está só. A leitura é o fundamento da alma – aquela parte imaterial do homem que abriga sua humanidade. Provê a alma de paciência e consciência, não apenas por trabalhar nossos medos e nossas esperanças, mas também por sua dimensão ética – ela nos fala do amor e do ódio, do medo e da coragem, dos sentimentos éticos e de tudo o que chamamos de humano do homem. Atividade paciente, a leitura trabalha nossa alma – o nosso mundo interior que, por sua vez, é responsável por associar o lido e vivido em nós.

Desde Sherazade, a tecelã das noites, nós sabemos disso: a ficção habita a alma do homem. Ler histórias também serve para reconciliar nossa alma aflita com o passado de cada um de nós, para nos lembrar do brasileiro que fomos e que deveríamos ou poderíamos ser. Há um traço profundamente revolucionário na leitura. Revolução é uma palavra arregimentadora: traz à luz o entusiasmo e a paixão do novo – ela desfaz a velha sociedade e derruba o velho poder.

Associada à leitura permite re-interrogar os acontecimentos sem ceder à facilidade de explicações definitivas e criar novas possibilidades de vida em comum. É uma associação generosa. Lembra a todos nós de um país que tem um passado e precisa indubitavelmente ser melhor do que o Brasil que temos hoje.  A leitura como mediadora entre a alma, a humanidade e a mudança, revolução. Tanto no plano individual quanto coletivo.

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