17 - 11 - 2017

Público do festival literário debateu utopia e literatura com Sérgio Abranches, Pedro Muriel, João Donato, entre outros nomes da criação

O Fliaraxá completa o terceiro dia repleto de atrações e recheado de boas histórias. O público que esteve nesta sexta-feira no Grande hotel debateu utopia com grandes autores, conheceu trajetórias de superação, como a de Pedro Muriel e, no fim, ainda pode ouvir o piano de João Donato. Mais uma vez, centenas de pessoas, sobretudo estudantes da rede pública, lotaram as salas do festival.

Seguindo o mote do evento, a utopia e sua relação com a língua e a literatura guiou os principais painéis. Falaram sobre o tema, entre outros intelectuais, Cláudio Prado, Marcia Tiburi, Ana Maria Gonçalves, Cristovão Tezza e Sérgio Abranches. Este último, em um Diálogo Espiral que teve o futuro como foco, falou sobre o seu último livro, “A era do imprevisto: a grande transição do século XXI”. Ele explicou que a ideia de escrever nasceu de uma inquietação sobre as mudanças recentes, mas muito aceleradas, por que a humanidade está passando. “Estamos, de fato, no fim, mas não digo apocalipse, pelo menos no descrito pelos livros, mas da forma de mundo que conhecemos hoje”. As mudanças a que se refere não são apenas vistas nas catástrofes ambientais. “Toda a estrutura surgida com o Iluminismo está em xeque”.

Para Abranches, essas alterações profundas, inclusive na esfera digital, vêm causando estranhezas na população. Sobram incertezas. Por vezes, geram reações negativas, como a raiva, em muita gente que não consegue se adaptar. As manifestações xenofóbicas estariam nessa prateleira. “Por outro lado, as mesmas mudanças produzem uma força social gigante, que nos ajudará a corrigir os erros que nós mesmos cometemos”.

Da perspectiva incerta de futuro, o Fliaraxá também trouxe histórias de superação. Pedro Muriel, de cadeira de rodas e aparelho respiratório, subiu a um dos palcos para falar sobre o seu livro “Proesia”. Foi uma bate-papo leve, bem humorado. Ele contou, entre outros assuntos, a sua experiência como artesão da palavra, inspirado no cotidiano. Perguntado sobre a liberdade que se percebe em seu modo de falar da vida, e na contraposição de que, na primeira impressão, estaria limitado, Pedro Muriel apontou a criação que teve como fator fundamental de sobrevivência. “Sempre que eu me lamentava e atribuía culpa a outra pessoa ou situação, minha mãe me corrigia”, explicou. “Dizia que a culpa era minha e que eu iria resolver”.

Muriel não cansou de arrancar aplausos. “Eu vejo a felicidade em tudo. Quando eu cheguei ao evento, a recepção foi incrível, então, eu fui feliz. A felicidade não é uma coisa de ontem ou de amanhã, é algo de agora. A felicidade está dentro do peito. Se ela não estiver aí, não adianta procurá-la em outra parte do mundo”.

Criação

Nas palestras sobre o processo criativo, algumas deixaram a literatura de lado. Na tarde, João Donato, um dos pais da bossa nova, entre os mais aclamados músicos brasileiros, explicou de onde tirou inspiração para compor obras como “Bananeira”, “A paz” e “A rã”. “Não tem hora para que as ideias apareçam”, disse. “De vez em quando surge uma melodia no ar e a gente tem de pegar”.

Donato parece compor o tempo todo. Andando pelo hotel, afirmou ter aprendido uma melodia nova com os passarinhos. Já fez música ouvindo cantos em terreiro de candomblé ou acompanhando assovios de um canoeiro. “Emoriô” e “Lugar comum”, duas músicas em parceria com o amigo Gilberto Gil, nasceram exatamente assim.  “Quando você gosta de uma coisa, ela vai acabar fazendo parte de você”, explicou, enquanto dedilhava as canções no teclado. Citou Goethe, para disser que, se não houvesse a música, nem o universo existiria. “A música cura e rejuvenesce”, explicou. “Eu, por exemplo, tenho 83 anos e pareço ter 82”.

Da música para a tinta. A tarde também reservou um painel com três dois principais ilustradores de livros infanto-juvenis do Brasil. A uma platéia de adolescentes, Eloar Guazzelli, Malette Menezes e Angelo Abu listaram a importância, os prazeres e os desafios do ofício que abraçaram.

O bate-papo acabou transformando em incentivo. Os três pediram para que os jovens não abandonem o desenho como forma de se expressarem. Abu lembrou que seus primos e amigos de escola, que também gostavam do lápis de cor, abandonaram a prática quando ficaram mais velhos. “Tem essa coisa que desenho é coisa de criança, mas não caiam nessa bobagem”, pediu. “Eu desenho em toda parte, toda hora, e sou muito feliz”.

Guazzeli age da mesma maneira. Ele costuma desenhar, por exemplo, as janelas do avião sempre que está em vôo. No nascimento do seu filho, rabiscou todo o parto, como se fosse uma máquina fotográfica. Uma sequência de imagens que pretende lançar em livro. “Aqui no hotel, passo o dia desenhando, isso faz muito bem para a cabeça”, disse. “Por que vocês não experimentam?”